Mudar de país é, de certa forma, aceitar uma série de pequenas mortes. Morre o “bom dia” ao porteiro, o cheirinho de pão fresquinho da padaria e até o nosso jeito de andar na calçada conhecida. E, no lugar dessas ausências, nasce um ser estranho, meio híbrido, que os outros chamam de imigrante, mas que eu prefiro chamar de metamorfose.
Rubem Alves dizia que “a ostra só produz a pérola porque nela entrou um grão de areia que a faz sofrer”. Para nós, que vivemos fora, o grão de areia é esse não-pertencimento. É o sotaque que insiste em denunciar que não somos dali, mesmo quando as palavras estão gramaticalmente perfeitas. É o olhar do outro que tenta nos enquadrar em uma caixa estreita de estereótipos.
Mas já repararam na beleza desse novo sotaque? Não falo apenas da fonética, mas do sotaque da alma.
Ser brasileiro no exterior é aprender um novo jeito de sorrir, um novo jeito de lidar com a burocracia gelada, um novo jeito de vestir o corpo. De repente, nos pegamos misturando o “jeitinho” com a pontualidade britânica ou o pragmatismo americano. Esse “português com pitadas de gringo” não é um erro; é a cicatriz de quem teve a coragem de se expandir.
Heráclito, o filósofo que amava o movimento, dizia que “ninguém banha-se duas vezes no mesmo rio”. O rio da imigração é correnteza forte. Quando voltamos ao Brasil, percebemos que não somos mais os mesmos que partiram. E quando estamos aqui, sabemos que nunca seremos exatamente como os que nasceram aqui.
Estamos condenados a ser estrangeiros em todo lugar? Talvez. Mas há uma liberdade mística nisso. Como a ostra, transformamos o incômodo da areia na pérola de uma identidade nova. A verdadeira essência do pertencimento não está no carimbo do passaporte, mas na capacidade de carregar nossa casa dentro de nós — no som de uma música, no sabor de um tempero e, principalmente, na forma como nos conectamos com quem, como nós, também está aprendendo a florescer em solo alheio.
No final, o que buscamos não é um lugar no mapa, mas um lugar no outro. Porque pertencer, como bem sabemos, é ser visto e validado, mesmo com todas as nossas misturas.
Me conte! Qual é a parte mais difícil da mudança de país?
Com carinho,
Natalia