Viver em outro idioma é viver em um estado constante de esforço. O inglês, por mais que eu o domine, por mais que eu o fale com fluidez em meu dia a dia em Los Angeles, é a língua da lógica, do trabalho, da sobrevivência. É uma língua “da porta para fora”. Mas o português… ah, o português é a língua da porta para dentro. É a língua do descanso.
É nela que eu sonho, é nela que eu xingo quando tropeço no pé da mesa e é nela que eu encontro as palavras que realmente traduzem o que sinto.
Eu sinto que preciso conviver com o meu português para não deixar minha essência desbotar. À medida que os anos passam, a gente corre o risco de se tornar uma cópia traduzida de si mesma. E eu não quero ser uma tradução; eu quero ser o texto original.
Quando eu ligo para os meus pais no Brasil, ou quando gravo o meu podcast, eu não estou apenas emitindo sons. Estou pisando em solo firme. É curioso como a voz muda quando mudamos o idioma. No inglês, eu sou a Natalia que resolve, que cria estratégias, que navega por uma cultura estrangeira. No português, bom, no português eu sou a Natalia, ponto.
Eu observo muitos imigrantes que, com o passar das décadas, vão deixando o português em uma gaveta esquecida. Eles começam a pensar em inglês, a sentir em inglês e, de repente, o português vira uma língua de “museu”. Isso me dá um certo medo. Não o medo de esquecer o vocabulário, mas o medo de esquecer o “sentimento” das palavras.
Existem coisas que a gente só sente em português. Como explicar “saudade” ou “cafuné” sem perder metade da magia no caminho? Como descrever o cheiro da terra molhada no interior do Brasil ou a luz do sol de uma tarde de domingo na casa dos avós usando palavras que não nasceram naquele chão?
A língua de herança, no meu caso, é a herança que eu protejo para que, quando eu olhar no espelho, eu ainda reconheça a menina que saiu de lá.
Às vezes, eu me pego forçando o português no meu dia a dia, mesmo quando estou sozinha. Leio autores brasileiros, ouço podcasts do Brasil, escrevo no meu blog. É um trabalho invisível e diário. É como cuidar de uma planta exótica em um clima que não é o dela. Se eu não regar com leituras, com músicas e com conversas, ela seca.
Rubem Alves dizia que “a gente só deve ensinar o que a gente ama”. E eu amo a plasticidade da nossa língua. Amo como o português brasileiro é doce, como ele faz curvas, como ele permite que a gente seja afetuoso até na hora de reclamar. Manter essa língua viva em mim é o meu maior ato de resistência cultural em Los Angeles. É dizer para o mundo que eu me adaptei, que eu venci, que eu moro aqui, mas que o meu “norte” ainda é traçado pelas palavras que minha mãe me ensinou.
Manter a língua é, acima de tudo, o meu jeito de honrar meus pais. Eles estão lá, com seus 62, 70 anos, vivendo a vida deles no Brasil. Quando nos falamos, a língua é o nosso abraço. Se eu deixasse o meu português murchar, eu estaria criando uma barreira entre nós que nem o melhor avião do mundo poderia atravessar.
A distância física já é dura o suficiente. Eu não quero que exista também uma distância semântica. Quero continuar entendendo os silêncios da minha mãe e as entrelinhas do meu pai. Quero que, quando eu voltar para visitá-los, eu não seja uma “estrangeira de sangue”, mas a filha que nunca saiu da mesa do café.
No final das contas, a língua de herança é o lugar onde eu moro quando o mundo lá fora parece confuso demais. Ela é o meu chão de segurança.
Se você, assim como eu, vive “entre dois mundos”, não tenha vergonha do seu sotaque e não tenha preguiça de cultivar sua língua materna. Ela não é apenas um meio de comunicação; ela é o seu DNA emocional. Continuar falando, lendo e sentindo em português é garantir que, não importa o quão longe a gente vá, a gente nunca vai estar verdadeiramente perdida. Porque, enquanto houver uma palavra brasileira em nossa boca, a gente ainda vai estar em casa.
No meu episódio com a Vivi falamos bastante também sobre passar o português pra frente com os filhos nascidos no exterior. Clique aqui pra ouvir.
E se quiser conversar mais, manda uma mensagem, vou adorar conversar com você.
Com carinho,
Natalia