Eu me lembro da primeira vez que alguém me disse, com um sorriso no rosto: “Nossa, mas você fala inglês muito bem para uma brasileira!”. Naquele momento, meu cérebro processou o elogio, mas meu estômago sentiu o soco. Levei um tempo para entender por que aquele “elogio” me deixou um gosto amargo na boca. Demorou para eu perceber que, por trás daquelas palavras bonitas, havia um muro invisível que me separava do resto do mundo. Era a microagressão fazendo sua primeira visita.
Rubem Alves costumava dizer que “a gente é o que a gente vê”. Mas o que acontece quando o mundo decide que você é apenas um estereótipo? O que acontece quando o olhar do outro não enxerga a sua pós-graduação, os livros que você leu ou a complexidade da sua história, mas apenas o país de onde você veio?
Para nós, mulheres brasileiras, esse peso é ainda mais carregado. Existe um imaginário mundial sobre o nosso corpo, sobre a nossa alegria e sobre a nossa “disponibilidade”. Quando cruzamos a fronteira, esse imaginário viaja na nossa mala, mesmo que a gente não tenha colocado ele lá. É o olhar que demora um pouco mais no decote, é o comentário sobre a “paixão brasileira”, é a surpresa quando demonstramos seriedade ou intelecto.
Essas são as “pequenas mortes”. Elas não deixam hematomas roxos na pele, mas deixam cicatrizes na autoestima. Rubem Alves falava muito sobre a “educação do olhar”. Ele acreditava que o papel do mestre — e talvez o nosso papel como seres humanos — é ensinar o outro a ver a beleza e a profundidade no que parece simples. Mas como educar o olhar de quem já vem com o filtro do preconceito instalado?
É fácil dizer que “é apenas uma brincadeira”. O futebol, o samba, o carnaval. São partes lindas da nossa cultura, claro! Eu amo o batuque e a emoção do gol. Mas quando essas coisas são as únicas que permitem que a gente ocupe um espaço, elas viram grades.
Sabe, às vezes eu me pego pensando na vulnerabilidade que é morar fora. Quando você sai do Brasil, você deixa para trás o seu “currículo social”. Lá, as pessoas sabem quem é sua família, conhecem seu histórico, entendem suas nuances. Aqui, você é uma folha em branco onde o outro escreve o que bem entende. E, muitas vezes, o que escrevem é baseado em ignorância.
Como eu disse no meu texto anterior, às vezes a gente nem sabe como se defender. Ficamos paralisadas. Será que eu fui grossa? Será que eu entendi errado? Essa dúvida é o que corrói o senso de pertencimento. Como pertencer a um lugar que só te aceita se você couber no papel de “exótica”?
A discriminação sutil é como um cupim que vai comendo a estrutura da nossa casa interna por dentro, sem fazer barulho. Ela aparece quando alguém assume que você não tem capacidade financeira, ou quando o médico fala mais devagar com você como se o seu sotaque fosse um sinal de que você não domina o idioma.
Precisamos falar sobre a dor de ser “explicada”. O famoso mansplaining ganha uma camada extra quando você é imigrante. É o “colono” tentando ensinar ao “colonizado” como as coisas funcionam, ignorando que nós temos uma bagagem tão rica quanto a deles.
Mas aqui entra a parte que eu acredito de verdade, e que me conecta com a esperança que o Rubem Alves sempre trazia. Se o mundo nos vê de forma pequena, nosso papel é nos mostrarmos gigantes.
Quando organizei festas juninas aqui, não era só sobre comer bolo de milho e vestir de caipira. Era um ato de pertencimento, trazer minha cultura pra mais perto. Eu estava dizendo: “Vejam, a gente tem traje típico que não é biquíni. A gente tem música que fala de sertão, de chuva, de colheita. A gente tem uma cultura que não é apenas a do carnaval, e com muitos temperos.”
No final das contas, a pergunta que fica é: como não se tornar amarga? Como não deixar que essas microagressões fechem nosso coração?
A resposta, para mim, está na conexão. No diálogo honesto. No podcast, no blog, na conversa de calçada. Se o mundo não nos dá o chão da segurança, a gente constrói esse chão com as mãos. A gente se une a outras mulheres, outras imigrantes, e cria uma rede onde somos validadas.
Como dizia Rubem Alves, “o amor é o que dá sentido ao tempo”. Se a gente conseguir transformar essa dor da discriminação em combustível para ensinar, para abrir caminhos e para educar o olhar do outro, então a gente venceu. Não se trata de perdoar o desrespeito, mas de não deixar que ele defina quem somos.
Somos muito mais que samba e futebol. Somos um povo diverso, intelectual, sensível e, acima de tudo, humano. E o humano, em qualquer lugar do mundo, só quer uma coisa: ser amado e respeitado por aquilo que realmente é.
Então é importante saber o que são as microagressões para que elas não passem despercebidas quando você as ouvir. E que esteja forte o suficiente não só para não deixar que te machuque, mas também, quando possível e seguro, para que você possa ter na ponta da língua uma resposta à altura.
Quer aprender mais? Na série UNA, de quatro episódios, tratamos com muita competência das agressões consideradas micro e das vias de fato. Está tão bom que fomos selecionadas como finalistas. Clique aqui para ouvir.
Se depois de ouvir você ainda quiser mais suporte nos procure, é só me mandar um e-mail vou adorar te conhecer e te dar suporte.
Com carinho,
Natalia